TEMA

ABSTRATO CONCRETO

A arquitetura é uma arte útil. Durante seu desenvolvimento, se
polariza entre o desenho do projeto e o canteiro de construção. Uma
separação entre os trabalhos a serem realizadas com lapiseira ou cliques
do mouse e aqueles que precisam de picareta, martelo, linha de
pedreiro, concreto, aço, etc. A primeira etapa, desgarrada da segunda,
se torna inconcebível materialmente – se restringe às ideias, às gavetas.
O canteiro, desvencilhado do desenho, apresenta um produto com
irregularidades, patologias, porém edificado e com propósito – a
“arquitetura possível”.

A universidade não produz arquitetura, pois esta é materialização
e a academia restringe sua atuação ao projeto. Se fechando para o que
ocorre na realidade urbana, mesmo com engajamento de parcela dos
professores e alunos, não consegue edificar uma conexão com a
comunidade, pois sua estrutura, ultrapassada e elitista, não valoriza
projetos de extensão e grupos que atuem junto às periferias. Como não
há diálogo com o poder público, com movimentos sociais e com a
comunidade na qual se insere, a universidade se isola dentro de uma
redoma delirante – forma profissionais para pensar coisas irrealizáveis e
realizar coisas impensáveis.

O abismo entre o pensado e o edificado é imenso. É possível
escavar ainda mais quando são mantidas as mesmas estruturas arcaicas
do projeto acadêmico, que desconsidera a comunidade e até o
mercado – neste último a relação é intrigante: a universidade
parcialmente o nega, mas não trabalha, na prática, mecanismos
projetuais que consigam efetivamente corrigir suas patologias. Essa
estrutura carcomida tem seu rebatimento nos alunos, que encontram
dificuldades a partir do momento que fitam os olhos da realidade
urbana. No fim, as comunidades, que historicamente já sofrem com a
estrutura social, não têm acesso ao conhecimento técnico que é
privilégio da academia, permanecendo pressionadas pela miséria.
Como desenhar para uma realidade não inventada? Partindo da
certeza de que a arquitetura não está apenas nas mãos do arquiteto,
como integrar atores e processos tão diferentes, como comunidade,
mercado, estudantes, pesquisadores e os próprios profissionais que a
fazem? O que está para além da caverna que é a academia? Onde
está a realidade? Aqui? Ali? É só isso?

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